Entenda o que são terras raras e por que elas interessam ao Brasil agora

Elementos químicos abastecem celulares, motores elétricos, aviões e turbinas eólicas.

Em 2026, o governo, em Brasília, encara limitações decisórias quanto à riqueza geológica brasileira. Os minerais conhecidos como terras raras incluem elementos da tabela periódica essenciais à fabricação de telefones celulares, peças de aviação e motores elétricos. A falta de refinarias coloca o país em desvantagem no comércio global. A Ásia detém o controle de 90% das exportações mundiais.

Enrique Munaretti é engenheiro, professor universitário e parceiro da Pedra Branca Escavações; atualmente trabalha em um projeto dedicado a tais terras. Ele ilustra o uso de substâncias como lantânio, európio, neodímio e gadolínio. De acordo com o docente, o termo popular induz o público ao erro.

O primeiro conceito a ser revisto é a ideia de que as terras raras são, de fato, raras ou mesmo terras (mais preciso seria chamar esse conjunto de “minerais raros”). O nome se popularizou há cerca de 40 anos, embora sua origem seja anterior. O engenheiro explica a aplicação industrial desses elementos. Os minerais atuam como tempero em ligas metálicas, para que estas suportem o frio em altas altitudes, além de formarem ímãs de alta potência em turbinas eólicas e em equipamentos como fones de ouvido minúsculos e potentes ou alto-falantes de celulares.

O Brasil abriga a segunda maior reserva de alta concentração desses minerais no planeta, com depósitos em Goiás, no Pará, em Minas Gerais, na Bahia e no Rio Grande do Sul. Diante dessa fartura, Munaretti demonstra receio quanto ao modelo de exportação focado no despacho de insumos sem valor agregado. Ele avalia que o país envia ferro puro para o Japão, para a China e para o mundo todo, e que os parceiros devolvem carros; afirma, ainda, que o Brasil não pode cometer o mesmo erro.

Disputas de influência

O comércio internacional convive com embates geopolíticos entre Washington e o governo de Xi Jinping, em razão de disputas pelas cadeias de suprimentos. Montadoras dos Estados Unidos, a exemplo da Ford, reportam paralisações na produção de veículos por escassez de peças retidas na Ásia. Na tese do parceiro da Pedra Branca, a falta de estoques compromete a construção de radares e de mísseis militares. O professor informa que as Forças Armadas dos Estados Unidos dependem desses materiais para que os aviões voem e os mísseis alcancem seus alvos.

O projeto chinês acumula três décadas de formação de estoques estatais. O professor enumera as diferenças de conhecimento científico entre os países. O sistema de Pequim projeta metas para séculos, em contraste com os problemas causados, no Ocidente, pelo revezamento de governos a cada quatro anos. Se empreendedores locais tentam escavar o solo em busca de lucro no mercado de metais, os concorrentes asiáticos inundam esse mercado com preços três vezes menores. Esse ataque financeiro leva os concorrentes à falência.

A tensão gera contratos de bilhões de reais no Hemisfério Sul. Neste bimestre, um fundo com sede nos Estados Unidos assinou a compra de uma mineradora no Vale do Jequitinhonha. A transferência de controle resultou em R$ 14 bilhões. A assinatura dos papéis de posse manifesta a ansiedade de empresas norte-americanas, com o propósito de romper o monopólio chinês na produção de baterias elétricas.

Caminhos para o amanhã

No intuito de escapar das incertezas do mercado, Munaretti aposta em autarquias nos moldes da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A recomendação defende a criação de entidades com foco na pesquisa de minerais, com vistas à concessão de liberdade de patentes aos pesquisadores brasileiros. O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) media tratativas diplomáticas para que o país efetive acordos de transferência de tecnologia de refino.

A tese central do docente critica a exportação de minério bruto e aconselha a agregação de valor à indústria de São Paulo ou de Minas Gerais. Essa crença encontra amparo na solidez da aviação nacional, capitaneada pela Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer). A fabricante de aviões tem urgência em receber essas ligas metálicas, com o objetivo de dar suporte aos jatos comerciais. A produção local de fios e rotores, com mão de obra formal, evita a evasão de capitais para o exterior.

O primeiro passo exige proteção financeira do governo federal contra os preços baixos do concorrente oriental. O professor reforça que a indústria nacional precisa de garantia governamental por cinco anos para que se desenvolva; do contrário, os compradores optam pelo lantânio chinês, que custa um terço do preço. Na conclusão da entrevista, as terras raras assumem, para os investidores, preço superior ao do grama do ouro e oferecem ao Brasil a chance de ditar o ritmo da tecnologia no futuro.

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