Irmãos Rebouças marcam origem da ferrovia com túneis na Serra do Mar paranaense

Traçado reúne 13 túneis e 41 pontes em obra que desafia a Serra do Mar desde 1885.

A história ferroviária paranaense passa, fundamentalmente, pela inteligência técnica e pela capacidade de projeto dos irmãos André e Antônio Pereira Rebouças Filho. Coube a eles formular estudos e propor soluções de engenharia que viabilizaram a ligação entre o planalto e o litoral, em uma época na qual transpor a Serra do Mar era considerado um empreendimento quase inexequível.

Baianos de nascimento, filhos de uma mulher escravizada alforriada e de um advogado, os irmãos figuram entre os mais importantes engenheiros negros formados no Brasil oitocentista. Egressos da Escola Militar do Rio de Janeiro e com aperfeiçoamento técnico na Europa no início da década de 1860, eles se destacaram em um país que ainda vivia sob o regime escravocrata e superaram o racismo por meio de uma competência técnica incontestável.

O pioneirismo no Paraná

A atuação dos Rebouças no Paraná transformou a infraestrutura local e impulsionou a economia. Dentre os principais marcos históricos de seu legado, destacam-se:

  • Estrada da Graciosa: Antônio chefiou as obras da estrada, que se consolidou como a única via totalmente pavimentada no estado até meados do século XX, e foi peça decisiva para a integração territorial.
  • Avanços urbanos e econômicos: os irmãos revolucionaram a exportação da erva-mate ao introduzir barricas de pinho (em substituição aos precários sacos de couro) e trouxeram as primeiras prensas para rótulos a Curitiba. Antônio também foi o responsável por projetar o primeiro sistema de encanamento de água da capital, materializado no chafariz da Praça Zacarias em 1850.
  • Causa abolicionista: além das obras, André e Antônio usaram sua influência para lutar ativamente pelo fim da escravidão e defenderam a inclusão social, econômica e educacional da população negra livre no Império.

A construção da Estrada de Ferro Paranaguá-Curitiba

O projeto mais arrojado da dupla teve início em 1871, quando receberam autorização para construir o Caminho de Ferro de Antonina a Curitiba. A concepção foi idealizada por André — que já havia servido como engenheiro militar na Guerra do Paraguai, onde participou da Batalha de Tuiuti — a partir de estudos conduzidos por Antônio.

Foto: cortesia de Serra Verde Express.

Embora tenham sido decisivos na formulação e na defesa do projeto, os irmãos não participaram da execução da obra. Antônio faleceu prematuramente em 1874. A construção efetiva da estrada começou em 1880 e estendeu-se até 1885, sob a condução técnica do engenheiro João Teixeira Soares.

Ao longo da obra, milhares de trabalhadores enfrentaram condições extremas para abrir cortes na rocha. O traçado reuniu 13 túneis e 41 pontes, o que transformou a ferrovia em uma referência duradoura da engenharia nacional. Um dos pontos mais emblemáticos é o Viaduto do Carvalho, construído em meio ao relevo abrupto da serra.

A ferrovia hoje: uma viagem no tempo

É nesse horizonte histórico que se insere a vivência de Patrick dos Santos, assessor de produtos do Grupo Serra Verde Express, empresa que atualmente opera o trem turístico na linha férrea Paranaguá-Curitiba. Com um interesse pelos trens cultivado desde a infância e memórias familiares ligadas a Tereza Cristina, localidade de Cândido de Abreu, no interior do Paraná, Santos estabelece uma relação afetiva com a história ferroviária do estado.

Em entrevista, ele descreve a viagem de trem como uma experiência capaz de aproximar o passado da paisagem natural. Esse patrimônio histórico ajuda a explicar o encanto que Patrick apresenta aos visitantes:

  • Trecho turístico: o percurso mais conhecido, entre Curitiba e Morretes, dura cerca de quatro horas e percorre aproximadamente 70 quilômetros pela Serra do Mar.
  • Extensão total: a ferrovia histórica completa soma cerca de 108 quilômetros, e consolida desde o século XIX a ligação de cargas e passageiros entre a capital e o litoral paranaense.

A operação atual preserva o valor da linha férrea e permite ao visitante perceber de perto a escala do desafio superado. A viagem oferece uma síntese rara de ousadia técnica e memória, mantém vivo o espírito empreendedor dos irmãos Rebouças e reafirma a ferrovia como um dos marcos mais expressivos da história do Paraná.

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