Flávio Lobato alerta para falta de técnicos em obras subterrâneas no Brasil

Especialista cobra formação de mão de obra para operar tecnologias modernas no setor.

A escassez de espaço na superfície das grandes metrópoles impõe uma mudança radical na forma como a engenharia planeja o crescimento urbano. O desenvolvimento de infraestruturas invisíveis assume o papel de garantir que redes de transporte, saneamento e energia funcionem sem interromper a dinâmica das cidades. Diante dessa realidade, o subsolo deixa de ser apenas uma alternativa geométrica e passa a figurar como o eixo central da sustentabilidade coletiva.

Quem acompanha essa evolução de perto e traduz a complexidade das obras subterrâneas é o engenheiro civil Flávio Henrique Cunha Lobato. Aos 56 anos, o profissional carrega na bagagem a herança de uma família de barrageiros e uma infância vivida dentro de canteiros de obras pelo país. Essa convivência precoce com grandes projetos estimula o interesse pela profissão e molda uma carreira dedicada a decifrar os segredos escondidos sob a rocha.

O interesse do especialista consolida-se de forma prática antes mesmo da conclusão da sua formação acadêmica na cidade de Itajubá, em Minas Gerais. Durante o serviço militar no Batalhão de Engenharia do Exército, ele aprende a dimensionar pavimentos e a enfrentar a rotina técnica das construções pesadas. Essa experiência inicial na caserna funciona como uma base sólida para a transição definitiva em direção aos grandes desafios da infraestrutura nacional.

Aprendizado na caserna molda o solucionador de problemas

A trajetória do engenheiro ganha um ritmo intenso logo após a sua graduação, em um período de forte retração econômica no início da década de 1990. Após atuar como fiscal de obras na aviação do Exército em Taubaté, ele assume a execução direta de projetos complexos em Araguari, incluindo pontes e demolições. Lobato afirma que a atração pelos desafios cresce na mesma proporção em que os problemas de engenharia parecem insolúveis na prancheta.

Essa busca por projetos de alta complexidade ganha um novo cenário em 1998, quando o profissional ingressa nas obras do Metrô de São Paulo pela construtora Andrade Gutierrez. Ele participa da implantação do sistema de via permanente com tecnologia de massa-mola, uma inovação absoluta no mercado brasileiro da época. Ao caminhar pelas imensas galerias subterrâneas de Itaquera e Guaianases, o engenheiro descobre a sua verdadeira vocação técnica no coração dos túneis.

O envolvimento com o setor aproxima o especialista da comunidade técnica e resulta em seu ingresso no Comitê Brasileiro de Túneis. Sob o incentivo de veteranos do setor, ele passa a integrar os debates sobre métodos executivos e diretrizes de escavação, cujos registros históricos constam na página oficial da instituição. Essa troca de experiências transforma o engenheiro em uma referência ativa na difusão do conhecimento geotécnico para as novas gerações.

Espaço subterrâneo preserva a qualidade de vida superficial

O avanço das cidades exige que as atividades puramente operacionais migrem para o subsolo para que a superfície permaneça destinada à qualidade de vida. A Associação Internacional de Túneis e do Espaço Subterrâneo expande o seu escopo de atuação justamente para defender esse uso inteligente do relevo tridimensional, conforme detalha o seu portal institucional (). O engenheiro reforça que o transporte de água, esgoto e energia depende dessa transição subterrânea para não estrangular a malha urbana.

Como exemplo dessa necessidade de expansão, o mercado acompanha o planejamento da terceira pista da Rodovia dos Imigrantes, que projeta o maior túnel rodoviário do país. O projeto conceitual dessa megaestrutura de transporte atende aos rigorosos critérios de preservação da Mata Atlântica e pode ser consultado na plataforma da Agência de Transporte do Estado de São Paulo. Contudo, o engenheiro alerta que o futuro dessas obras de grande porte esbarra em um obstáculo crítico: a falta de pessoal qualificado.

A rápida introdução de inovações tecnológicas no mercado nacional expõe a escassez de operadores e técnicos preparados para lidar com maquinários modernos. O país enfrenta um cenário de forte dependência externa para a condução de equipamentos de ponta, como as tuneladoras de grande diâmetro conhecidas como tatuzões. O engenheiro pontua que a formação de mão de obra local não acompanha a velocidade das demandas contratuais das grandes concessionárias.

A lacuna geracional e o desafio da atração de talentos

Essa dificuldade de retenção e capacitação de novos profissionais também pauta discussões estratégicas em empresas como a Petrobras, que busca soluções para o desenvolvimento de quadros técnicos na área de óleo, gás e energia. Os programas de fomento à pesquisa e extensão das universidades direcionam a maior parte dos recursos para o segmento de software, deixando a engenharia de implantação em segundo plano. O mercado de tecnologia concorre diretamente com os canteiros, atraindo os jovens recém-formados com salários mais competitivos no início de carreira.

O afastamento progressivo dos profissionais mais experientes, conhecidos no meio técnico como os "cabeças brancas", acelera a criação de uma lacuna geracional perigosa na infraestrutura. Dados setoriais levantados pela Confederação Nacional da Indústria revelam que a proporção de engenheiros por habitante no Brasil permanece dez vezes abaixo dos índices registrados na Coreia do Sul, como aponta o estudo sobre desenvolvimento industrial. Esse esvaziamento técnico compromete a capacidade de planejamento a longo prazo e abre espaço para improvisações.

Diante das adversidades do cenário nacional, o setor sobrevive graças à capacidade de adaptação dos profissionais que buscam respostas originais para imprevistos geológicos. O engenheiro conclui que o sucesso da engenharia de túneis depende de ações coordenadas entre universidades e empresas para atrair jovens talentos de forma estruturada. Somente o planejamento estratégico do subsolo pode garantir que o país não perca o controle sobre o desenvolvimento das suas próprias artérias urbanas.

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