Rinaldo Mancin aponta minerais críticos como base da transição energética

Diretor do Ibram afirma que o país precisa de tecnologia e capital para ampliar competitividade.

A demanda global por energia renovável altera a rota do setor mineral. O Brasil tem reservas de terras raras, lítio, urânio e tório, recursos vitais para blocos econômicos. Na busca pela descarbonização, os minerais substituem o petróleo. O diretor de sustentabilidade e assuntos associativos do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Rinaldo Mancin, detalha as mudanças no mercado e os desafios de infraestrutura e legislação no país.

A mudança na matriz energética mundial depende inteiramente da mineração. Baterias para veículos elétricos, sistemas de armazenamento de eletricidade, painéis fotovoltaicos e aerogeradores necessitam de minerais específicos. Diante de políticas de descarbonização na Europa e em outras regiões, o mercado volta a atenção para as reservas brasileiras. O país ocupa a segunda posição global em reservas desses minerais críticos.

Mancin relata que o mundo depende de insumos processados na China. O mercado chinês detém a reserva número um e domina cerca de 95% do processamento global. O diretor explica que o Brasil e os Estados Unidos tinham capacidade de processamento no passado. Nas décadas de 1960 e 1970, empresas estatais brasileiras concentravam terras raras a partir de monazita no Espírito Santo. Nos anos 1980, os Estados Unidos também operavam mineração e processamento local. Ambos os países terceirizaram essas etapas para a China.

A retomada da produção fora da Ásia esbarra em barreiras de mercado. O diretor afirma que, ao longo dos anos, a China aplicou práticas para manter o monopólio. “Toda vez que um novo ator tenta entrar no mercado, a China manipula o mercado e faz um dumping de preços para controlar o setor”, diz Mancin em referência ao histórico do setor.

Incentivos e tecnologias na cadeia mineral

O setor mineral brasileiro registra previsão de US$ 80 bilhões em investimentos para os próximos quatro anos. Desse valor, uma faixa entre US$ 17 bilhões e US$ 20 bilhões destina-se a minerais críticos, como lítio, terras raras e cobre. A extração bruta de minério de ferro continua como o principal produto nacional. Atrás apenas do setor de petróleo e gás, a mineração posiciona-se como o segundo maior foco de aportes na economia atual.

A extração bruta não basta para a independência econômica. O país precisa de aportes financeiros e de avanço tecnológico para o meio da cadeia produtiva, etapa de transformação do minério em componentes aplicáveis, como superímãs. Os Estados Unidos aportam US$ 350 bilhões para fomentar a transição energética interna. A União Europeia destina US$ 360 bilhões para o mesmo fim.

No Brasil, o Ministério de Minas e Energia e projetos de lei em tramitação na Câmara dos Deputados preveem mecanismos de incentivo. O Brasil também negocia acordos bilaterais de tecnologia e exportação com a União Europeia, os Estados Unidos e o Reino Unido. “Nós não podemos ter essa agenda de minerais críticos discutida unicamente no plano da política. Precisamos de objetividade, engenharia técnica e engenharia financeira”, pontua o diretor.

O panorama da mineração subterrânea

A extração subterrânea representa 4% do total de operações no país. A expertise de companhias como a Pedra Branca Escavações atende a um nicho com margem de expansão. Projetos em minas subterrâneas causam menor impacto nos recursos naturais e nas comunidades do entorno. Essa característica facilita o processo de licenciamento ambiental perante os órgãos de controle.

Apesar das vantagens de licenciamento, o custo de operação supera os métodos de extração em superfície, pois exige tecnologias de ponta e regras restritas de gestão de riscos. Outro entrave para a mineração subterrânea reside na legislação trabalhista brasileira. A norma vigora desde 1942.

Mancin avalia a legislação vigente como anacrônica para os padrões da engenharia contemporânea. A regra foi redigida sob uma lógica de trabalho manual, com uso de picaretas. Atualmente, os processos utilizam robôs e operações a distância. O texto legal de 85 anos proíbe a entrada de mulheres em minas subterrâneas e impõe restrições de turnos. Essas limitações elevam o custo da mão de obra e reduzem a competitividade do Brasil em relação a países com legislações flexíveis.

Trajetória profissional e o pilar ESG

A experiência de Mancin conecta meio ambiente e regulação. O executivo iniciou a carreira no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em 1990. No Ministério do Meio Ambiente, coordenou o Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil, programa de grande porte com foco na criação de secretarias estaduais na Amazônia. O diretor também atuou como regulador na área de acesso a recursos genéticos e no combate à biopirataria, além de trabalhar como consultor para o Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas (ONU). Antes do setor mineral, ele integrou uma empresa de biotecnologia farmacêutica no Canadá.

No Ibram, o executivo completa 20 anos de atividades. Ele assumiu o cargo de diretor de relações institucionais após o rompimento da barragem em Brumadinho, com foco na gestão da crise e no acompanhamento das comissões parlamentares de inquérito. Hoje, ele atua à frente das agendas de descarbonização e mudanças climáticas.

O instituto celebra 50 anos de fundação. A entidade atua como organização privada e sem fins lucrativos. Comporta mais de 300 associados. Esses membros respondem por 85% da produção mineral do país. A associação norteia as atividades na promoção de práticas de governança, responsabilidade social e respeito ao meio ambiente (ESG). A entidade opera sob ética, transparência e inclusão, com o propósito de induzir o desenvolvimento socioeconômico.

O trabalho do instituto divide-se em três frentes. A primeira engloba a defesa de interesses do setor por meio do acompanhamento de 800 projetos de lei no Congresso Nacional e no Poder Executivo, em Brasília. A entidade produz estudos técnicos para embasar políticas públicas, com foco nos estados de Minas Gerais, Pará, Bahia e Goiás. A segunda frente concentra a produção de guias técnicos sobre gestão de rejeitos, segurança de barragens e a implementação do programa global Towards Sustainable Mining (TSM), em parceria com a Mining Association of Canada. A terceira frente envolve a realização de congressos e feiras.

Exposibram atrai ecossistema mineral

O Ibram promove a Expo & Congresso Brasileiro de Mineração (Exposibram). O mercado reconhece a feira como o principal encontro do setor na América Latina. A edição de 2026 ocorre entre os dias 24 e 27 de agosto, em Belo Horizonte (MG). A feira internacional proporciona networking estratégico e viabiliza a exposição de tecnologias, serviços e soluções. O congresso promove debates sobre cenários globais, políticas públicas e as tendências da mineração.

A organização espera receber 100 mil visitantes no evento de Minas Gerais. O espaço comporta cerca de 800 estandes e atrai delegações da União Europeia, da Austrália e dos Estados Unidos. As discussões abrangem direito minerário, segurança de barragens e minerais raros. A Pedra Branca Escavações participa do encontro como expositora e integra as rodadas de negócios para ampliação de portfólio no setor subterrâneo.

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