Presidente Jean Pierre Ciriades aponta falta de profissionais e reforça ações de capacitação no setor.
31/7/26



Obras de infraestrutura demandam especialistas em escavações subterrâneas. O presidente do Comitê Brasileiro de Túneis (CBT), Jean Pierre Ciriades, relata o avanço de projetos e a necessidade de engenheiros no mercado nacional. A entidade, vinculada à Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), busca disseminar conhecimentos sobre túneis e atrair acadêmicos e profissionais para o setor.
O contato de Ciriades com o setor começou na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), onde cursou disciplinas de mecânica dos solos. Seu interesse pela área o levou a trabalhar em projetos de escavação em um escritório de engenharia, no qual atuou por 15 anos no desenvolvimento de estruturas de alta complexidade.
Em seguida, ingressou na Vale, na Diretoria de Gestão de Ativos. Após o rompimento da barragem de Brumadinho, auxiliou na elaboração de normas técnicas e na criação de processos de segurança para escavações, coordenando equipes multidisciplinares com foco em garantias estruturais. Atualmente, Ciriades trabalha na empresa norte-americana Moffatt & Nichol, voltada para a infraestrutura de portos e transportes.
O ingresso de Ciriades na diretoria do CBT ocorreu na posição de diretor ad hoc, avançando posteriormente para a vice-presidência. Ele assumiu a presidência da entidade em 2023 e foi reeleito para o biênio 2025-2026.
A gestão do comitê é voluntária e não remunerada. Fundado em novembro de 1990, o grupo reúne especialistas para demonstrar os benefícios das obras subterrâneas nas metrópoles. Os túneis reduzem o tráfego urbano, a poluição do ar e as ilhas de calor do asfalto, além de liberar a superfície para parques e áreas de lazer. A entidade propõe soluções de engenharia para transportes, saneamento, mineração e energia elétrica.
A literatura do setor foi reforçada em 2006 com o lançamento do livro Túneis do Brasil, que resgata a história da especialidade no país a partir de depoimentos de profissionais da área.
O comitê organiza congressos nacionais desde 2004. A 6ª edição alcançou o recorde de 1.000 participantes e contou com diretores da Associação Internacional de Túneis e do Espaço Subterrâneo (ITA, na sigla em inglês). O Brasil integra a entidade global com o objetivo de disseminar técnicas na América Latina e já teve representantes brasileiros no comando da associação internacional nas gestões de 2001 a 2004 e de 2016 a 2019.
O CBT também é membro fundador da Itacet, braço de ensino e treinamento da associação internacional criado em 2009.
A agenda de eventos expandiu-se com o passar dos anos. Em 2017, o comitê organizou a 4ª edição do congresso nacional em São Paulo, integrada ao evento Latin American Tunneling. Em 2019, a entidade promoveu o FloripaTUN, em Florianópolis (SC), cidade que também sediou a reunião do conselho da associação internacional. Em 2021, durante as restrições da pandemia de Covid-19, a 5ª edição do congresso reuniu 500 pessoas em São Paulo, consolidando o formato híbrido.
Além de eventos em cidades como São Paulo e Foz do Iguaçu (PR), o comitê promove o Tunnel Day em 4 de dezembro, data dedicada a Santa Bárbara, padroeira dos profissionais de túneis e mineração. A entidade também publica o boletim digital CBT@News.
A construção de túneis vai além da escavação de rochas e da contenção do solo. A operação do espaço depende de equipes multidisciplinares: geólogos e engenheiros civis projetam a estrutura física; engenheiros mecânicos e eletricistas implementam sistemas de ventilação, iluminação e controle de acesso; e equipes operacionais monitoram a segurança diária.
A limitação de espaço físico aumenta os riscos operacionais. Veículos de carga e de passeio transitam sem inspeção prévia de segurança, e incêndios em túneis podem ser fatais, a exemplo do caso ocorrido no Túnel do Mont Blanc, na Europa, em 1999. Por causa desses riscos, o planejamento exige atuação conjunta desde a concepção do projeto para mitigar falhas.
Projetos de mobilidade urbana em diversos estados demandam maior atuação do setor. Obras de expansão do metrô ocorrem em São Paulo e Fortaleza. O governo paulista planeja o Trem Intercidades e a ligação imersa entre Santos e Guarujá (SP). O estado de Santa Catarina também estuda projetos com túneis imersos.
O setor enfrenta escassez de mão de obra qualificada. Ciriades destaca a necessidade de atrair recém-formados para a área. A especialização em engenharia de escavações exige anos de estudo continuado em geotecnia e estruturas, já que cada obra apresenta desafios geológicos únicos e escapa de rotinas padronizadas.