UFPR muda grade de engenharia civil e leva alunos a desafios reais da cidade

Reforma curricular amplia vivência prática e reforça apoio à saúde mental dos alunos.

3/4/26

O curso de Engenharia Civil do Setor de Tecnologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) nasceu do sonho de uma universidade paranaense, criada em 1912. Atualmente, o ensino da disciplina passa por uma transformação, que teve início em 2023 sob a coordenação da professora Selma Aparecida Cubas.

A discussão e a implementação dessa nova grade curricular tiveram como base a integração de docentes dos três principais departamentos que compõem o curso: Transportes, Construção Civil, e Hidráulica e Saneamento. Esse esforço conjunto reestruturou a grade com o objetivo de alinhar o conhecimento técnico, científico e extensionista às necessidades de um mercado de trabalho em constante transformação — impulsionado por novas tecnologias e pela inovação —, mas, principalmente, aos anseios de uma sociedade mais justa e igualitária. Todo esse processo ocorreu sem esquecer as questões ambientais e os impactos, positivos e negativos, da engenharia civil sobre o meio ambiente.

A reformulação busca derrubar os muros acadêmicos tradicionais e pede que os futuros profissionais encarem a cidade como um organismo vivo e interconectado, em vez de mero cenário para a execução de projetos isolados. Para conduzir essa visão, Cubas leva à liderança acadêmica uma bagagem pragmática.

Ela iniciou sua trajetória como técnica em saneamento em projetos voltados à prefeitura, antes de cursar Engenharia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e concluir o doutorado direto na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP). Após cerca de 15 anos de docência em instituições privadas — fase na qual concluiu que a profissão exige tanta habilidade em relações humanas e comunicação quanto capacidade técnica —, a professora ingressou definitivamente na UFPR, em 2014, e, mais tarde, assumiu a linha de frente da graduação.

O pilar central dessa mudança na grade do curso é a ampliação do diálogo, o que desmonta a percepção de que a engenharia se resume à dureza solitária da matemática e da física. O currículo procura aplicar um modelo de ensino capaz de tirar os estudantes de suas bolhas setoriais. A intenção é levá-los a compreender as relações da edificação, das vias urbanas, da mobilidade ou do saneamento, entre outras áreas, com a cidade, em atenção à importância da interação contínua entre profissionais de diferentes áreas do conhecimento e a sociedade.

Esse novo formato nasceu de debates no Núcleo de Docência Estruturante (NDE), comitê do qual a coordenadora participa desde o momento em que as discussões sobre a atualização ganharam força, a partir de 2017. O grupo promoveu um intercâmbio geracional e intelectual para a instituição ao reunir, na mesma mesa, professores veteranos, com décadas de experiência, e recém-chegados, em um esforço para projetar uma abordagem modernizada para os cinco anos de graduação.

A complexidade de modernizar um currículo tradicional e extenso cresceu de forma drástica com o desafio da pandemia de covid-19. A crise global forçou a coordenação a repensar a estrutura universitária. A reorganização da formação de engenheiros, sob restrições sanitárias e ensino remoto, exigiu uma adaptação rápida das estratégias do corpo docente para garantir o aprendizado e tentar manter o engajamento dos alunos, os quais, de repente, passaram a depender exclusivamente de interações virtuais.

Além disso, o curso precisou se alinhar às novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para as engenharias e às determinações do Ministério da Educação (MEC), que passaram a exigir 10% da carga horária obrigatoriamente dedicada à extensão universitária. Para acomodar essas 415 horas sem inflar em excesso o tempo total de formação — fixado na faixa de 4.150 horas —, a equipe inovou com a criação de disciplinas integradoras e extensionistas. Com isso, o aluno assume, desde o primeiro ano, a responsabilidade de desenvolver projetos sociais e solucionar problemas comunitários reais.

Para assegurar uma integração efetiva nessas frentes, o novo currículo exige o contato constante dos alunos com situações práticas, inclusive com a presença ativa de empresas dentro do campus — a exemplo da participação da Pedra Branca Escavações. A universidade firmou parcerias com o Sindicato da Construção Civil do Paraná (Sinduscon-PR), com a Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e com o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (Crea-PR), entre outras empresas e instituições, para viabilizar o acesso ao conhecimento prático como uma forma de “mentoria corporativa”.

Tal escolha também visa a promover discussões sobre temas importantes em conjunto com o setor privado, por meio de cursos e feiras de exposição. A iniciativa abrange a apresentação de projetos de extensão e os desafios da Engenharia, os quais ocorrem no saguão de entrada do Setor de Tecnologia. Pretende-se, ainda, a criação de uma força conjunta entre empresários e a UFPR para a modernização de salas de aula e equipamentos.

A proposta dessas parcerias é substituir as antigas fileiras de carteiras por mesas de trabalho, em um formato semelhante a um escritório de engenharia, com foco na inovação e na discussão de projetos. Essa visão prática aparece com rigor no estudo das grandes obras de infraestrutura, com destaque especial para o uso de túneis e o trabalho no espaço subterrâneo.

Dentro dessa abordagem, a professora ressalta aos estudantes a enorme responsabilidade ética e estrutural envolvida na profissão, principalmente nas obras de subsolo — seja para a mobilidade, seja para o transporte de minérios ou de água. Ela alerta que qualquer falha de cálculo ou de execução técnica nesse ambiente inóspito pode provocar acidentes urbanos e ambientais de proporções desastrosas. Trata-se de um serviço para profissionais com preparo de excelência.

“O domínio do ambiente subterrâneo se torna ainda mais vital diante da necessidade de sobrevivência das cidades e do desenvolvimento de um país. Os túneis estão cada vez mais presentes no cotidiano das obras de engenharia”, explica Selma.

A coordenadora projeta que os futuros engenheiros enfrentarão o desafio de perfurar maciços rochosos e transpor grandes distâncias geográficas — seja para a geração de energia, a obtenção de minérios ou o transporte de água e alimentos —, de forma a garantir o abastecimento de metrópoles em uma combinação de engenharia pesada e preservação dos recursos naturais. Essa necessidade refletirá o que ocorreu em obras históricas, a exemplo dos trabalhos dos irmãos Rebouças no século XIX, no projeto e na construção da ferrovia Curitiba-Paranaguá; da concepção da Usina Capivari-Cachoeira (a maior usina subterrânea do Sul do país), executada na década de 1960 por Enedina Alves, a primeira mulher engenheira da UFPR e do Paraná; e do Sistema Cantareira, em São Paulo, o maior sistema de abastecimento de água, composto por sete túneis interligados para transportar o recurso a quase 9 milhões de pessoas.

Em meio a essas elevadas exigências acadêmicas e profissionais, a coordenação adotou, simultaneamente, uma postura vigilante em relação à saúde mental dos estudantes, um tema de extrema preocupação na atualidade. Para lidar com a pressão natural da graduação e com o impacto residual do isolamento sobre a nova geração, a instituição implementou uma rede de suporte estruturada, com acompanhamento psicológico, monitorias acadêmicas precoces e atividades extracurriculares de descompressão. A meta é clara: preservar o bem-estar do aluno antes de lançá-lo à tarefa de construir o futuro.

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