Fotógrafo Zig Koch constrói acervo histórico e reflete sobre era digital

Entrevista aborda carreira, mercado editorial e impactos da popularização digital.

30/4/26

O fotógrafo curitibano Zig Koch, cujo nome de batismo é Ricardo Koch Cavalcanti, construiu um dos acervos fotográficos mais respeitados do Brasil. Com o olhar treinado inicialmente pela arquitetura, ele abandonou as pranchetas em 1986 para documentar os biomas brasileiros, munido de técnica, sensibilidade e um rigoroso senso de organização. Em uma transição que acompanhou desde os laboratórios químicos até o armazenamento digital, Koch coleciona um arquivo físico de 100 mil cromos analógicos, além de mais de 350 mil fotografias digitais, e mantém uma visão pragmática sobre o futuro da profissão.

Abaixo, os principais trechos da entrevista em que o fotógrafo reflete sobre sua trajetória, a banalização da imagem contemporânea e a paixão intrínseca ao registro do meio ambiente.

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Vinícius Sgarbe: Olá, Zig. Muito obrigado por aceitar o convite. É um privilégio enorme para a PBEsc News entrevistá-lo. As perguntas iniciais são fundamentais para situar o nosso leitor e apresentar a sua origem profissional. Gostaria que você nos contasse sobre a sua trajetória. Como começou a fotografar a natureza, que é a principal característica do seu trabalho?

Zig Koch: Em primeiro lugar, eu também agradeço pela entrevista. Confesso que não sei exatamente como tudo começou. Quando eu era adolescente, tive a oportunidade de adquirir uma câmera SLR — na época, ainda não existiam as digitais. Era uma Pentax com algumas lentes. Revendo as fotografias em negativo colorido que eu produzia na época, noto que não havia registros de pessoas, apenas de paisagens e animais. Eu realizava muitos testes com a câmera e precisava anotar todas as configurações em um caderno. Pegava um rolo de filme e anotava os dados da primeira foto: a abertura do diafragma e a velocidade do obturador utilizadas. Comprei alguns manuais de fotografia e executava os exercícios propostos para compreender o conceito de profundidade de campo, algo que demorei muito a assimilar e que, hoje, ensino nos cursos que ministro. O mesmo ocorreu com a questão da velocidade. Atualmente, repasso esses conceitos aos meus alunos com base nas dúvidas que eu mesmo tinha, o que facilita muito a transmissão do conhecimento.

Abelha sem ferrão polinizando flor. Foto: Zig Koch.

Vinícius Sgarbe: Antes da fotografia, você atuou em outra área técnica. Como ocorreu essa transição?

Zig Koch: Na minha formação, cursei primeiramente Mecânica Industrial na antiga Escola Técnica. Depois, ingressei em Arquitetura. Formei-me e atuei por quatro anos no escritório de planejamento do Estado. Certa vez, fiz uma viagem com um grande amigo, que infelizmente faleceu há alguns anos: o fotógrafo Haroldo Palo Júnior. Passamos um mês no Pantanal fotografando na Bacia do Rio Taquari, em uma fazenda de um amigo dele que também se chama Ricardo — aliás, meu nome de batismo é Ricardo, e "Zig" é apenas um apelido de infância. Voltei encantado com a experiência. Eu havia levado muito filme e o equipamento disponível na época; embora limitado, todo o salário que eu recebia como arquiteto era investido em material fotográfico.

O Haroldo pediu que eu levasse os filmes dele para revelar em um laboratório de sua confiança. Pensei: "Se o Haroldo, que é um excelente profissional, confia nesse laboratório, vou revelar os meus lá também". Ao analisar os resultados, percebi que, a despeito da discrepância de equipamentos — ele possuía uma lente teleobjetiva de 800 mm f/5.6, e eu usava uma lente de 300 mm f/4.5 —, o meu material estava muito homogêneo e com excelente qualidade. O Haroldo era uma pessoa muito desprendida e sugeriu que eu depositasse algumas imagens na antiga Kino Fotoarquivo. Assim o fiz e logo realizei vendas rápidas para capas de discos e cartões-postais. Em poucos meses, essas vendas paralelas me renderam o equivalente a três meses do meu salário de arquiteto. Levei um ano para tomar a decisão definitiva, e migrei oficialmente para a fotografia em 1986. Hoje eu estaria aposentado pelo Estado, com uma renda razoavelmente boa, mas optei por esse caminho.

Vinícius Sgarbe: E como você se inseriu no mercado editorial e institucional de preservação ambiental?

Zig Koch: Naquela época, várias ONGs ambientais estavam surgindo, como a Fundação SOS Mata Atlântica, a SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem) e a Mater Natura, do Paulo Pizzi. Acompanhei o embrião dessas organizações e comecei a fornecer material para elas, muitas vezes acompanhando de forma voluntária o levantamento de fauna na Serra do Mar. Por coincidência, eu mantinha contato com Eloy Zanetti, então d'O Boticário, que me propôs projetos interessantes, incluindo exposições. Assim produzi o primeiro guia de aves de Curitiba.

Antes disso, com o material do Pantanal, organizei minha primeira grande exposição no Shopping Mueller, impressa a preço de custo pela antiga Colorama. O público pôde ver animais que muitos desconheciam, como o cabeça-seca, o tuiuiú, o colhereiro e o veado-campeiro, capturados inclusive em fotografias aéreas feitas a partir de um avião Cessna. A repercussão foi excelente. Comecei a viajar para São Paulo todo mês, batendo na porta de editores cujas revistas eu comprava nas bancas. Realizei trabalhos especiais para a Eco-92 e publiquei em veículos como Manchete, Geográfica Universal, Horizonte Geográfico e Caminhos da Terra. Aos poucos, fui consolidando um arquivo gigantesco. O que você vê aqui atrás de mim no vídeo, no estúdio, é a parte física do acervo; são 100 mil cromos rigorosamente organizados.

Joaninha Calligrapha polyspila. Foto: Zig Koch.

Vinícius Sgarbe: Essa seria justamente a minha próxima pergunta, pois é um excelente dado absoluto. Atualmente, como funciona o armazenamento de todo esse volume? Fica localmente ou na nuvem?

Zig Koch: Parei de fotografar com filme analógico em 2005 e, desde então, produzo estritamente em formato digital. Durante as minhas mudanças de endereço ao longo de 20 anos, sempre montei laboratórios físicos. Inclusive neste estúdio que projetei, reservei um espaço para a revelação que hoje serve apenas como depósito, pois migrei de tecnologia exatamente na época da construção.

Atualmente, guardo os arquivos digitais e os seus respectivos backups (cópias de segurança) localmente, em discos rígidos (HDs) aqui no estúdio. Hoje, devo ter mais de 350 mil fotografias nesse formato. Como sempre planejei criar meu próprio banco de imagens, desenvolvi um rigoroso sistema de catalogação próprio. Passei meses testando fichas e avaliando a eficácia até estabelecer um padrão alfanumérico definitivo. Em 2008, lancei o banco de imagens Natureza Brasileira com um sistema online. Após a evolução tecnológica, precisei migrar esse acervo para um sistema hospedado na nuvem. Hoje, o banco online conta com aproximadamente 28 mil fotos disponíveis.

Vinícius Sgarbe: Você iniciou na fotografia analógica com as clássicas câmeras SLR e fez a transição para o digital em 2005 com bastante fluidez. Atualmente, como é a sua relação com as ferramentas de Inteligência Artificial?

Zig Koch: Próxima de zero. Não utilizo IA para manipular as minhas composições. Emprego o Adobe Photoshop apenas para tratamento de cor e contraste — preferência que desenvolvi porque a minha migração para o digital ocorreu inicialmente pela digitalização do acervo de filmes. Eu utilizava um scanner Nikon Coolscan 8000, que operava com múltiplos formatos.

Historicamente, o fotógrafo profissional precisava deter uma vasta competência técnica; um amador raramente alcançava um resultado equivalente. Atualmente, a fotografia tornou-se um processo muito acessível. Com os recursos disponíveis nas câmeras e celulares contemporâneos, registrar imagens ficou fácil, o que resultou em uma oferta excessiva de prestadores de serviço e na queda do valor financeiro da profissão. Precisamos nos reinventar constantemente.

Vinícius Sgarbe: Antigamente, havia uma separação clara entre a fotografia profissional e a imagem amadora; usava-se "revelar" para o analógico e "imprimir" para o digital. Atualmente, essas fronteiras deixaram de existir. Você nota que a facilidade tecnológica resultou em uma certa banalização do olhar fotográfico?

Zig Koch: Acredito que sim. Ainda vivenciamos um momento de transição, mas prevejo que ocorrerá uma revalorização da fotografia em sua essência "pura". Ou seja, a fotografia autêntica, desprovida de manipulações de IA — aquela que é o resultado real da interação física da luz com o momento e a cena. Essa fotografia terá um valor muito superior àquela em que se substitui digitalmente o céu, altera-se inteiramente a temperatura de cor e removem-se pessoas da cena. Contudo, a grande maioria do público talvez não consiga sequer distinguir uma técnica da outra.

A valorização do trabalho é complexa. A percepção de valor está intrinsecamente ligada ao contexto. Se você apresenta uma fotografia em uma galeria de prestígio, o observador ficará maravilhado; se exibi-la em um contexto rotineiro, poderá pensar que "qualquer um faz". Por isso, a forma como o profissional se apresenta é fundamental. Valorizar-se consiste em entregar um trabalho consistente, demonstrar profundo conhecimento técnico e posicionar-se adequadamente.

Gruta de Encantadas. Ilha do Mel, Paranaguá (PR). Foto: Zig Koch.

Vinícius Sgarbe: Por que a natureza? Você poderia ter direcionado o seu olhar para inúmeras outras áreas rentáveis, como publicidade ou eventos. O que o levou a focar o seu olhar nos biomas naturais?

Zig Koch: O meu interesse surgiu na adolescência, possivelmente influenciado pelo meu ambiente familiar — meus avós e minha mãe eram artistas plásticos. Para ilustrar: em eventos de família, eu sequer me lembrava de levar a câmera. Mas, se o destino fosse a serra ou o campo, o equipamento fotográfico era indispensável.

O momento decisivo, ocorrido quando eu ainda trabalhava no serviço público estadual, derivou da constatação de que as pessoas não compreendem a natureza. Percebi que eu poderia contribuir muito mais para a conscientização ambiental mostrando o meio ambiente às pessoas através de livros, reportagens e exposições do que elaborando projetos de arquitetura e urbanismo, área na qual já existiam profissionais brilhantes. Acredito que seria um arquiteto realizado se a fotografia não tivesse cruzado o meu caminho, pois gosto imensamente de projetar espaços. Contudo, a minha paixão por viajar e por estar em contato direto com os biomas falou mais alto.

Vinícius Sgarbe: Para concluirmos, essa diferenciação do que é a verdadeira "fotografia raiz" consolida-se na prática do mercado profissional? Quando uma grande corporação planeja produzir um inventário ou um livro sobre a natureza, ela busca o profissionalismo do seu nome, em vez de recorrer a soluções amadoras mediadas pela tecnologia simplificada?

Zig Koch: Exatamente. As grandes corporações compreendem a necessidade inegociável de contratar um profissional. Empresas menores, frequentemente por restrições orçamentárias, acabam optando pela alternativa mais barata e amadora, como um parente ou um funcionário empunhando um smartphone.

É inegável que a qualidade técnica dos celulares atuais é excepcional. Contudo, se o operador não dominar os conceitos fundamentais — como iluminação, composição e enquadramento —, não produzirá uma boa imagem. Em muitos dos cursos que ministro, enfatizo que o mais importante é entender a ciência e a arte da fotografia. O equipamento é secundário. Sem a bagagem estética e teórica, ter a câmera mais cara do mercado não resultará em um registro de excelência.

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Nota do editor: Nós da Pedra Branca Escavações agradecemos a Zig Koch por sua generosidade que nos permite publicar algumas de suas extraordinárias imagens.

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