Primeira engenheira negra do país, ela venceu barreiras e marcou obras subterrâneas.
19/3/26



Neste mês, a Pedra Branca Escavações presta uma homenagem a Enedina Alves Marques. Ela é a primeira mulher negra a conquistar o diploma de engenheira no Brasil, e a primeira mulher engenheira da região Sul. Com uma carreira marcada pela superação de barreiras de raça e gênero, a profissional ganha destaque histórico por seu trabalho na construção de túneis e grandes complexos subterrâneos.
Segundo o Plenarinho (projeto da Câmara dos Deputados), Enedina nasce em Curitiba, no dia 13 de janeiro de 1913, filha do lavrador Paulo e da lavadeira Dona Duca, um casal de escravizados libertos. Sobre a ascendência, o Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast) traz uma pequena diferença ao descrevê-la como neta de escravizados. Após o abandono do pai, a mãe se muda com os filhos para a casa do delegado Domingos Nascimento Sobrinho. Lá, a menina trabalha como doméstica e tem os estudos pagos pelo militar para fazer companhia à filha dele. O relato da Câmara informa a alfabetização aos 12 anos, em 1925, e a formatura como professora normalista em 1931 — data que o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (Crea-PR) registra como 1932 no curso de magistério.
Os arquivos do Crea-PR reúnem os maiores obstáculos superados para alcançar o ensino superior. A jovem atua como babá, doméstica e professora para pagar os estudos preparatórios até o ingresso na Faculdade de Engenharia do Paraná, em 1940. A instituição de classe aponta que ela é a única mulher em uma turma com 32 homens e conquista o diploma de engenharia civil em 1945. A vivência neste ambiente universitário é objeto de pesquisa do historiador Jorge Luiz Santana na Revista Vernáculo, edição de 2011, que constata a forte discriminação sofrida por Enedina devido a imposições de classe social, etnia e gênero.
O grande marco da biografia tem ligação direta com escavações. O texto da Câmara dos Deputados destaca a entrada da engenheira na Secretaria Estadual de Águas e Energia Elétrica do Paraná a partir de 1947, onde chefia técnicos em obras de grande porte. Ela realiza o levantamento topográfico e ajuda na construção da Usina Capivari-Cachoeira, a maior hidrelétrica subterrânea do Sul do País, um projeto de túneis e galerias no subsolo. Nos canteiros destas escavações, a publicação parlamentar detalha a postura firme de Enedina: veste macacão, carrega um revólver na cintura e dá tiros para o alto para exigir o respeito dos operários.
A usina subterrânea, que hoje recebe o nome de Governador Pedro Viriato Parigot de Souza, fica no município de Antonina, segundo acrescenta o Crea-PR. Já o Mast sublinha que o planejamento idealizado pela engenheira amplia a oferta de água e luz para a capital, Curitiba. Além do aproveitamento hídrico no subsolo, informações conjuntas do Crea-PR e da Prefeitura de Curitiba registram a atuação da profissional em projetos de superfície, a exemplo do Colégio Estadual do Paraná e da Casa do Estudante Universitário (CEU).
A vida da profissional rende outros reconhecimentos oficiais com o passar dos anos. Na década de 1960, a aposentadoria garante a ela proventos equivalentes aos de uma juíza, como registra a Câmara dos Deputados. Sem casar ou ter filhos, Enedina morre vítima de um infarto em seu apartamento, em agosto de 1981, aos 68 anos. O texto parlamentar e o Crea-PR lembram que o seu exemplo também inspira o documentário "A engenheira", dos pesquisadores Paulo Munhoz e Sandro Luís Fernandes.
Hoje, o antigo apagamento histórico dá lugar a tributos. O poder executivo municipal relata a inauguração, em janeiro de 2024, de uma escultura de bronze de Enedina na Rua XV de Novembro.
Neste marco de 2026, a Pedra Branca Escavações reforça a importância desta trajetória. O tributo apresenta ao público uma mulher culta e elegante que usa o seu conhecimento técnico para desbravar os túneis e as rochas do Brasil.