Pioneiro de Itaipu defende hidrelétricas para garantir estabilidade

José Pereira do Nascimento analisa desafios atuais e recorda marco de 1984.

2/3/26

Foz do Iguaçu (PR) — Em 5 de maio de 1984, um comando técnico deu início à operação da Unidade 01 da usina de Itaipu. O responsável pelo ato foi o técnico José Pereira do Nascimento. Hoje, ele analisa o cenário energético brasileiro e recorda os desafios técnicos e humanos na implantação da hidrelétrica, que, em 2025, atingiu a marca histórica de 3,1 bilhões de megawatts-hora (MWh) de produção acumulada. Tal volume seria suficiente para suprir a demanda do Brasil por seis anos e um mês.

Durante a 9ª Conferência Nacional de PCHs e CGHs, realizada em fevereiro de 2026, Nascimento apontou os obstáculos atuais do setor. "Enfrentamos um problema grave: a interrupção na construção de grandes usinas", argumenta o especialista. Para ele, a estabilidade do sistema elétrico depende da fonte hídrica. "Com usinas hidrelétricas, dispomos de máquinas com capacidade de rotação necessária para garantir a estabilidade do sistema; sem elas, essa gestão torna-se extremamente complexa", justifica.

O técnico associa a intermitência das fontes eólica e fotovoltaica à ocorrência de apagões. "Ocorre falta de energia quando, por exemplo, o sol se põe e não há suprimento imediato", explica. "Em minha visão, é muito mais produtivo investir em usinas de grande porte e retomar a construção de unidades que comportem máquinas de alta potência", avalia.

Ainda assim, ele reconhece a importância das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs). "Há uma sucessão de potenciais de pequeno porte que permite a instalação de usinas em locais onde a transmissão é reduzida", pondera. "Trata-se de uma potência menor que, contudo, complementa de forma eficaz o suprimento de energia", sustenta.

Ao tratar da construção de Itaipu, Nascimento esclarece um ponto técnico fundamental. "Em Itaipu, a estrutura associa-se ao leito do rio; não houve a construção de túneis, mas sim escavação e desvio das águas", detalha. A partir dessa observação, ele compara a infraestrutura brasileira à de outros países. "O Brasil, em termos de obras subterrâneas, possui pouca expressão se comparado à Noruega", observa. "Lá, existem túneis de 20 quilômetros, ou como aquele nos Alpes, com 55 quilômetros; no Brasil, raramente se projeta algo nessas dimensões", analisa.

Em entrevista exclusiva ao PBEsc News, o técnico reconstituiu sua trajetória. "Sempre atuei na área de operação", define-se. Oriundo de Furnas, ele e outros profissionais foram convocados pela Eletrobras para compor a equipe de implantação e operação de Itaipu. "Mudamo-nos para cá em 1981", relembra.

Nascimento relata que o evento mais celebrado — o sincronismo da primeira unidade, em maio de 1984 — não foi o mais empolgante para o corpo técnico. "O sincronismo é um evento célere e simples; antes dele, contudo, ocorrem etapas que despertam maior entusiasmo", revela. Ele descreve o primeiro giro da máquina como o momento de maior expectativa. "Até então, ninguém conhecia o som daquela máquina; o primeiro giro ocorre a cerca de 10% da velocidade total e todos acompanham o processo para verificar a existência de ruídos anômalos. É o momento em que confirmamos a integridade funcional daquele equipamento monumental", descreve.

Ele destaca a tecnologia das unidades geradoras de 700 megawatts, que, na época, operavam apenas na usina de Grand Coulee, nos Estados Unidos. O que permitiu tamanha potência em um espaço físico reduzido foi o sistema de resfriamento. Em vez de circulação exclusiva de ar, as máquinas de Itaipu utilizam água desmineralizada que percorre o interior das barras do estator. "De modo simplificado, a água circula por dentro dos condutores", esclarece. Isso mantém a temperatura entre 60 e 65 graus, enquanto em outras máquinas o calor atinge de 100 a 120 graus.

A trajetória em Itaipu, de 1981 até sua aposentadoria em 1998, envolveu também a consolidação de uma cultura operacional para a empresa binacional. Ele recorda uma iniciativa de sua esposa, Ana Maria. No primeiro Natal da usina em operação, ela preparou uma cesta de alimentos e, juntos, foram à casa de máquinas à meia-noite para cumprimentar a equipe de turno. "Fizemos o mesmo nos dias 24 e 31 de dezembro", conta. "Uma das grandes missões foi criar uma cultura institucional, pois Itaipu é uma organização dedicada a uma única usina", conclui.

Para o técnico que contribuiu para a consolidação da maior geradora de energia do mundo, o pensamento final é direto: "Não há qualidade de vida sem energia", afirma.

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